sábado, 3 de agosto de 2013

Desenvolvimento da Música Brasileira - parte 1


Diversidade natural
Um capítulo especial à evolução musical no Brasil não é exagero ou xenofobia, mas se explica pela riqueza inconteste dos nossos artistas – eruditos e populares ---; seus gêneros e ritmos; e a incorporação folclórica e cultural à própria História nacional.
O patrimônio maior é a diversidade harmoniosa de todos os segmentos desta arte, herdado dos europeus, africanos e, mais recentemente, da cultura americana. Nada mais nada menos que um perfeito reflexo da miscigenação étnica e cultural característica do Brasil. As influencias externas se misturaram, se ramificaram e proporcionaram estilos originais, como bossa nova, samba e o forró.

Alvorecer musical
Ninguém contesta que os tupiniquins tinham sua musicalidade. Como é o trivial, a música indígena é basicamente voltada para o cerimonial (dança da chuva, boa-caça, da cura, fúnebre, etc.).
Provavelmente a primeira cultura musical brasileira pós-descobrimento foi religiosa -- uma das ferramentas para a catequização dos índios ao cristianismo e idioma português --, iniciada no século XVI. A chegada dos escravos negros importados da África variou o cenário, embora suas expressões artísticas ficassem restritas às senzalas.
Os movimentos mais suntuosos começaram a surgir no século XVIII através de grupos denominados “irmandades da música”, como a de “Santa Cecília”, formada em Ouro Preto (Minas Gerais), sob a regência de Antonio José da Silva (1705 - 1739), o popular “Judeu”. Os espetáculos alternavam entre concertos, óperas e espetáculos folclóricos que abordavam temas diversos. Sua obra sátira e cômica fez sucesso aqui e chegou também a Lisboa, onde Judeu foi enforcado e queimado pela Inquisição (1739).
As riquezas naturais de Minas Gerais concentraram, por um longo tempo, intelectuais e artistas em Ouro Preto e Diamantina, onde uma conceituada ordem dos músicos foi instituída, composta de importantes artistas nacionais e europeus. Registros históricos afirmam que essa ordem reunia mais nomes que em toda Portugal. Os maiores músicos dessa fase foram: Marcos Coelho Neto, Francisco Gomes da Rocha, Inácio Parreira Neves, Manoel Dias de Oliveira, João de Deus Castro Lobo e Emerico Lobo de Mesquita (1746-1805) – o mais influente destes. Até os dias correntes, a tradição musical destas cidades é fato e tem grande reconhecimento.

Chegada da Corte Portugues
Provocada pela guerra napoleônica, a vinda de D João VI em 1808 e a instalação da Corte de Portugal no Rio de Janeiro provocaram uma efervescência em todas as artes. Junto com a corte real veio o renomado compositor e comandante da orquestra portuguesa Marcos Portugal (1762 – 1830).
O imperador, autentico mecenas, construiu boas instalações de escolas e salas de espetáculos e impulsionou a Música em geral. Um ponto de referência era a Capela Real, sob a direção de José Maurício Nunes Garcia (1767 - 1830), um mulato carioca reconhecidamente grande compositor. Bem nessa época, com a decadência da extração do ouro em Minas Gerais, a elite artística mineira se transferiu para o Rio. Eles se uniram a outros notáveis, como o compositor e padre José Maurício.
O regresso de D. João VI a Portugal, logo após a queda de Napoleão Bonaparte, prejudicou sensivelmente as atividades artísticas locais, mesmo sendo o herdeiro real, D. Pedro I (1798 - 1834), bem instruído na Música. A escassez de recursos financeiros oriunda da transferência da corte à Europa foi determinante para um período praticamente oco.

A Música da Independência
Depois que D. Pedro I proclamou a Independência do Brasil (1822) iniciou-se uma retomada musical, sob a batuta do carioca Francisco Manoel da Silva (1795 - 1865), compositor, violinista e professor de Música. Muito influente na elite, organizou célebres atividades artísticas na capital fluminense – então sede imperial do Brasil. Foi fundador do Conservatório Imperial do Rio de Janeiro, da Imperial Academia de Música e da Ópera Nacional. A composição de 1831, feita para homenagear a permanência de Dom Pedro I (no ato em que abdicou do trono português para ficar no Brasil) foi a mais importante de sua vasta e reputada obra. Essa mesma música, mais a letra de Osório Duque Estrada, foram oficializadas em 1922 com o Hino Nacional Brasileiro.
Carlos Gomes
Pouco depois despontou no Brasil Antônio Carlos Gomes (1836 – 1896), dito por alguns como o primeiro gênio musical brasileiro. Carlos Gomes nasceu em Campinas, interior paulista, onde aprendeu os fundamentos da Música com seu pai, também músico. Em 1860 transferiu-se para a capital nacional (Rio de Janeiro) para estudar no Conservatório Imperial. Ali, alcançou as graças do imperador Dom Pedro II (1831 - 1889), que patrocinou uma bem-sucedida viagem à Europa em 1864. Depois de estudar aprimoramentos, Carlos Gomes arrebatou enorme sucesso logo de estréia de sua ópera “O Guarani” (1870), baseada na obra literária homônima de José de Alencar, cuja apresentação se deu na conceituada casa Teatro alla Scala. Suas apresentações bateram vários recordes de público, além de receber excelente cotação da Crítica. Problemas de saúde e familiares o levaram ao declínio social e empobrecimento. Voltou ao Brasil em 1892, que era uma República. Porém, sem o mesmo prestigio dos tempos de D. Pedro II, não obteve o merecido êxito, especialmente também pela incompreensão dos conterrâneos em relação as suas novas obras.
Sem muita opção, acabou se transferindo para o estado do Pará para reger o Conservatório local. Voltou à Itália novamente e experimentou novo fracasso. De volta a Belém, agonizou de um câncer que ali o mataria. “O Guarani” ainda hoje é a música oficial do programa “A Voz do Brasil” no rádio. Outras obras admiráveis dele: “Fosca” (1873), “Salvador Rosa” (1874), “Fosca” (1873), “Maria Tudor” (1879), “Fosca” (1873), “O escravo” (1889), “Condor” (1891) e “Colombo” (1892). A tendência de suas composições era o romantismo, com forte inclinação ao nacionalismo, conforme sua biografia escrita por Rubem Fonseca “O Selvagem da Ópera”.

Nacionalismo Brasileiro
Carlos Gomes abriu caminho para outros brasileiros fazerem carreira na Europa, tais como: Leopoldo Miguez (1850 - 1902), autor da melodia do Hino da República mediante concurso; e Henrique Oswald (1852 - 1931), criador do Instituto Nacional de Música, que sucedeu o Conservatório imperial.
Embalada pela proclamação da república, a onda artística seguia a linha nacionalista. Um exemplo clássico é “Luar do Sertão”, de 1910 (“Não há, ó gente, ó não, luar como esse do sertão...”) cuja autoria foi disputada entre o compositor maranhense Catulo da Paixão Cearense (1863 - 1946), que a registrou em seu nome e o João Pernambuco (1883 - 1947), o provável autor. Ambos são representantes do despertar da música sertaneja nordestina que mais inspiraria o surgimento de novos ritmos como o maxixe, xaxado, xote e baião. São pioneiros também na aplicação do violão como instrumento da melodia principal, até então considerado chulo.
A escola nacionalista se caracterizada ainda pelo desejo de se desprender das regras clássicas, de misturar estilos – sobretudo o popular – além de inovar. E originalidade não faltou.
Brasílio Itiberê (1846 - 1913), dito excepcional pianista e compositor, além de atuar como diplomata no Paraguai e Alemanha, iniciou o movimento nacionalista que buscava inspiração no folclore brasileiro extraído das culturas indígena e negra. Seu concerto para piano “A Sertaneja” (1869) sintetiza sua obra e teve repercussão internacional.

Boemia Carioca
O surgimento da classe média carioca, formada pelos funcionários públicos, comerciantes e empreendedores, fez surgir um estilo diferenciado de apreciação artística chamado de “boemia”. Ao contrário das festas suntuosas dos salões com grandes orquestras, os bares e coretos recebiam pequenos grupos de artistas executando instrumentos acessíveis (violão, cavaquinho, flauta, etc.). A música mesclava o popular com o erudito, a sofisticação e o improviso.
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Joaquim Calado
Foi assim que o compositor e flautista Joaquim da Silva Calado (1848 - 1880), mulato carioca de talento inesgotável se destacou Suas composições eram tão complexas e inovadoras que poucos em seu tempo compreendiam, mas admiravam. Dele se originou uma linhagem de músicos denominados “chorões”, de onde saiu o “Choro” ou “Chorinho”, gênero de notas rápidas na melodia (executada basicamente por violão, cavaquinho, bandolins, banjo ou flauta) e acompanhamento fortificado por batucada de raízes africanas. ‘Foi condecorado por D. Pedro II com a medalha da Ordem da Rosa em 1879.
Ernesto Nazareth
Dessa mesma linhagem, o compositor e pianista carioca Ernesto Nazareth (1863 - 1934), abusou da originalidade em seus improvisos. Desenvolveu técnicas apuradas sobre o tango e jazz americano, convergindo com outras influencias, consagrou a forma definitiva do chorinho. Sua composição “Brejeiro” é considerada a pedra fundamental da nova fase desse estilo. Ernesto era chamado “O rei do chorinho” e influenciou outros grandes artistas dessa linha. Eis alguns:
Waldir Azevedo
Waldir Azevedo (1923 - 1980), compositor da famosíssima “Brasileirinho” (1947), uma das mais espetaculares músicas instrumentais de todos os tempos. Foi proclamado “rei do cavaquinho”, por sua excelência ao executar esse instrumento e fazer dele o elemento majoritário do chorinho (quando antes era para mero acompanhamento). Outras pérolas dele: “Lamento de um cavaquinho”, “Pedacinho do Céu”, “Moderado”, “Pirilampo” e “Delicado”.
Zequinha de Abreu (1880 - 1935) paulista de Santa Rita do Passa Quatro, compositor e instrumentista de flauta e clarinete, autor da exuberante “Tico-tico no fubá”.
Chiquinha Gonzaga (1847-1935) é codinome de Francisca Edwiges Neves Gonzaga, compositora, pianista e maestrina carioca. Seu talento para música e teatro superou todos os desafios pessoais e o preconceito por ser mulher. Carregando a bandeira do feminismo, ela fez história na arte nacional com composições e interpretações estonteantes em operetas – uma forma abreviada e mais popular de ópera. A composição “Abre Alas”, de 1899, foi o marco da formatação clássica das marchas carnavalescas. A letra faz alusão a sua principal campanha que era abrir caminho da arte popular às elites sociais. E ela deu um passo grande nesse sentido. Chiquinha Gonzaga também se notabilizou por fundar a Sociedade Brasileira dos Autores Teatrais. Outras obras relevantes: “A Filha do Guedes”, “O Corta Jaca”, e “Forrobodó”.
Pixinguinha
Pixinguinha (1897 – 1973) carioca da gema, extraordinário instrumentista e compositor de obras maravilhosas como as melodias de “Carinhoso” e “Lamento”. Fez parte de vários conjuntos e criou o renomado “Os Oito Batutas” (com ela na flauta, João Pernambuco no e Donga no violão) que fez excursão de sucesso na Europa. Seu repertorio é composto de mais de mil peças, incluindo as trilhas sonoras para o cinema, com forte tendência para o estilo denominado samba-canção -- uma versão mais moderada do chorinho.
Anacleto de Medeiros (1866-1907) era filho de uma escrava liberta, mulato e pobre. Porém, talentosíssimo, foi um dos primeiros brasileiros a fazer registros fonográficos (iniciados em 1902), na ocasião, em LP (Long Play) de 78 rotações, e ter seu disco impresso e comercializado.

Braguinha
Música Carnavalesca
Uma afluente do chorinho é a ”marcha de carnaval”’, ou simplesmente, “marchinha”. Além de Chiquinha Gonzaga, de quem já citamos, desse gênero podemos destacar:
Braguinha, nome artístico de Carlos Alberto Ferreira Braga, e que mais tarde tomou como pseudônimo profissional “João de Barro” foi o autor da letra de “Carinhoso” (duas décadas depois da composição desta melodia por Pixinguinha), de famosas marchinhas de carnaval e de trilhas sonoras para o cinema.
Noel Rosa
Noel Rosa (1910 - 1937), chamado de “filósofo”, foi um
dos poucos membros dessa escola de origem classe média branca. Primou por composições satíricas, humorísticas e trágicas, embora soubesse conservar nelas o requinte, a elegância e simpatia. Muitas de suas músicas foram registradas por outros artistas – dizem que isso condição para que entrasse nesse circulo dominado por mulatos e menos abastados.
Lamartine Babo (1904 - 1963) autor das mais famosas músicas de carnaval, dentre elas: “O teu cabelo não nega”, “Linda morena”, e em parceira com João de Barro (Braguinha) “Uma andorinha só não faz verão”. Mas a sua eternidade foi assegurada depois de compor os hinos dos quatro principais clubes de futebol carioca (Flamengo, Vasco, Botafogo e Fluminense). Também não é pra menos: ele penetrou nos dois mais apaixonantes movimentos culturais do Brasil (Música e Futebol).

A formatação do Samba
A Praça Onze, no Rio de Janeiro, costumava concentrar artistas negros que misturavam a música com a dança (como a capoeira) e candomblé. Ali nasceu o gênero brasileiro mais respeitado no mundo: o samba, baseado na mistura do erudito com a marcação rítmica das palmas e batuque africano. O marco do samba é “Pelo telefone”, gravada em 1917 e de autoria atribuída a Donga (parceiro de Pixinguinha no conjunto Os Oito Baturas) e Mauro de Almeida. Esta composição, na verdade, é considerada plágio de uma coleção popular extraída na Praça Onze.
Mas as raízes do samba são mais profundas: do Lundu africano, importado com a escravidão negra, ao maxixe (versão nativa da polca européia). Portanto, embora tivesse sido concentrada no Rio de Janeiro, já havia se espalhado por outros centros urbanos, especialmente no estado da Bahia.
Cartola
O samba variou bastante e deixou de ser um simples ritmos para ser um gênero ramificado que abarca vários estilos Partido alto, Pagode, Samba-canção, Samba-enredo, Samba-rock, etc. A criação dos cordões de carnaval e das escolas de samba (Estácio de Sá, Portela, Mangueira, etc.) deram mais volume ao gênero. Além disso, praticamente todos os artistas do Chorinho tradicional mergulharam nessa praia. Acrescenta-se à lista, Cartola (1908 - 1980), um dos fundadores da Estação Primeira da Mangueira e autor do clássico “As rosas não falam”.

A Era de Ouro
O rádio virou febre nacional a partir de 1930, iniciando aqui a chamada “Anos de Ouro” da música popular brasileira. Um dos pioneiros entre as estrelas desse período foi Ari Barroso (1903 - 1964), que brilhou como músico e locutor de programas de calouros. Sua mais importante criação foi “Aquarela do Brasil”, considerado nosso hino nacional popular.
Carmem Miranda
Brilharam também nessa fase: Francisco Alves (1898 - 1952), o “Rei da Voz”. Gravou mais de 500 discos e é o recordista nacional dos discos de 78rpm.
Carmem Miranda (1909 - 1955), nascida em Portugal e estabelecida no Brasil desta a infância. Seu sucesso radiofônico a levou ao cinema de Hollywood.
Ataulfo Alves (1909 - 1969), autor de clássicos memoráveis como “Sei que é covardia”, “Ai que saudades da Amélia” e “Atire a primeira pedra”. – estas duas, em parceria com Mário Lago.
Orlando Silva (1915 - 1978), o “Cantor das multidões”, como era chamado por sua voz belíssima. Foi lançado por Francisco Alves e depois ganhou um programa exclusivo na Rádio Nacional, no qual alcançou enorme sucesso. Foi o primeiro a gravar a letra de “Carinhoso” (da melodia de Pixinguinha), escrita por Braguinha especialmente para ele. A sua aceitação foi praticamente unânime.
Dorival Caymmi (1914 -), representante da cultura baiana. Iniciou sua carreira na Rádio Clube de Salvador e depois seguiu para o Rio, onde fez parcerias importantes, como em “O que é que a baiana tem?”, com Carmem
Miranda. Outro clássico seu é “Marina”.

Descentralização
A partir da década de 1930 o rádio e o disco provocaram a descentralização da elite musical situada no Rio de Janeiro, então capital da República. O Nacionalismo dividiu espaço com o Regionalismo, em que vários centros artísticos se formaram por todo o país. Esses movimentos não significaram uma cisão, mas uma diversificação de estilos – até porque eles se entrelaçavam pela relação de influências.
A Rádio Nacional abriu espaço para diversos segmentos regionalistas, como a chamada “música de raiz”, espécie de sertanejo rural, comum no interior. Um exemplo disso foi o programa apresentado pela dupla Jararaca & Ratinho entre 1936 e 1945. Misturando a viola e o saxofone, eles exploraram e divulgaram o folclore e a música de diversas regiões, como a cantoria e a embolada nordestina e o caipira da região centra-sul. Eles influenciaram uma casta de músicos que formaria a base da música sertaneja que explodiria nos anos posteriores. Entre outros, citamos: Pena Branca & Xavantinho, Tonico & Tinoco e Alvarenga & Ranchinho. Os primeiros grandes sucessos sertanejos foram: “Luar do Sertão” de Catulo da Paixão Cearense e “Menino da porteira” de Teddy Vieira e Luizinho.
Os festivais populares de São Paulo, organizados pelo folclorista Cornélio Pires, também foram bem cobertos pelo rádio.
Novos gêneros surgiram e outros já tradicionais em um determinado escopo ganharam notoriedade e atravessaram fronteiras. É o caso do trovadorismo mineiro, o caipira do eixo Goiás - Mato Grosso, o forrobodó nordestino, etc. Desta forma, os artistas não mais se viam obrigados a obedecer a um determinado segmento.
O eclético Heitor Villa-lobos (1887 - 1959) é um exemplo contundente. Nasceu no Rio de Janeiro e ingressou cedo na Música, com forte inclinação à pesquisa sobre as variações e história da nossa cultura. Para tanto, em 1912 excursionou pelo país catalogando os estilos das tribos indígenas e comunidades negras, dos quais substanciou seu repertório. Foi beneficiário do governo brasileiro de uma bolsa de estudo em Paris, França, se projetando internacionalmente definitivamente. Dirigiu várias orquestras na Europa, Estados Unidos e no Brasil. Sua coleção excede duas mil composições, em que fez uso dos mais distintos gêneros, e da qual destacamos “Bachianas brasileiras” – um pacote de melodias que funde a sofisticação instrumental de Johann Sebastian Bach com nosso folclore nacional.
Heitor Villa-Lobos foi o fundador-mor da “Academia Brasileira de Músicos”, entidade que reúne, desde 1946, os quarenta nomes mais renomados entre compositores, intérpretes e musicólogos do Brasil. Sua sede é no Rio de Janeiro.

A vez da Seresta
O trovadorismo mineiro, o erudito da classe média paulista (em ascensão) e a boemia popular carioca resultaram na criação da Seresta, um estilo romântico, melancólico e, dito sem maldade nenhuma, gandaieiro – ilustração real daquele momento da burguesia.
A seresta é uma versão brasileira da “Serenata” original da Itália, folclore em que um grupo itinerante de cantores, acompanhados basicamente por violões, saia no sereno da noite para levar mensagens cantadas na janela das pretendidas. Tal prática já era tradicional na região de Diamantina e Ouro Preto, estado de Minas Gerais -- o mesmo pólo musical fundado no período colonial. No
entanto, o modelo brasileiro se formou com mais abrangência por adicionar pitada de vários estilos (chorinho, samba, bolero e sertanejo) e por ser aplicado desde os bares de esquinas, quermesses paroquiais a salões. Os praticantes da seresta não se limitavam a serem apenas seresteiros – embora houvesse quem o fizesse. Além do mais, a semelhança dos ritmos impossibilita uma classificação precisa dos títulos. A canção “Ronda”, de Paulo Vanzolini, por exemplo, tornou-se um clássico da seresta, embora possa ser enquadrada em outros gêneros – o próprio autor a qualificava como um samba-canção. Villa-Lobos se aventurou nesse mar com uma coleção de quatorze peças chamada “Serestas para canto e piano”.
Os seus artistas mais consagrados foram:
Nelson Gonçalves (1919 - 1998) cantor gaúcho que estabeleceu a voz grave como o padrão desse gênero. Fez estrondoso sucesso por longos anos, sobretudo com composições de Adelino Moreira (“A volta do boêmio”, “Negue”, “Meu dilema” e “A deusa do asfalto”) e Herivelto Martins (“Caminhemos”, “Pensando em ti” e “Fica comigo esta noite”), além de regravar praticamente todos os clássicos de seu tempo.


Altemar Dutra, mineiro de uma voz que produzia um eco inigualável. Introduziu à seresta um toque de latinidade cantando versões clássicas do idioma castelhano, especialmente boleros (“La Paloma”, “Perfídia”, “Maria Helena”, “Meu velho”). Mas também muito sucesso com composições nacionais, como: “Sentimental demais”, “Que queres tu de mim”, “Tudo de mim” e “O trovador”, do capixaba Evaldo Gouveia e do cearense Jair Amorim; “As rosas não falam” de Cartola. Semelhante ao primeiro da lista, fez releitura dos principais clássicos dessa era.


Ângela Maria (1928 -), natural de Macaé-RJ, ficou praticamente toda a década de 1950 entre as maiores estrelas nacionais. Seus sucessos mais expressivos são: “Ave Maria do morro”, de Herivelto Marins; e “Entre a noite e a despedida”.

O despertar da Sanfona Branca
Um nordestino com sotaque carioca só render no forró. Luís Gonzaga (1912 - 1989) deixou o sertão pernambucano e foi pro Rio em 1939 tentar a sorte. Apresentou-se no show de calouros de Ari Barroso, na Rádio Nacional e se deu bem. Tocando sua sanfona branca, introduziu inigualavelmente no meio popular a música e a tradição nordestina. Estilizou e liderou o gênero “Forrobodó”, ou simplesmente, “Forró”, que engloba vários ritmos como “Baião”, “Xote” e “Arrasta-pé”. O estilo é a síntese de um caldeirão de ritmos como Samba, Lundu e danças folclóricas europeias, principalmente da Holanda -– de quem o forró introduziu o seu principal instrumento tonante: o Acordeos –- por nós batizada de Sanfona – que ao lado do triângulo (elemento da música africana) e da zabumba (de origem indígena), forma o trio tradicional de acompanhamento.



Como o Baião foi o mais aceito pela crítica, o velho Lula foi alcunhado “o rei do baião”. A parceria com o cearense Humberto Teixeira (1916 - 1979) rendeu canções inesquecíveis: “Asa Branca”, “Paraíba”, “No meu pé de serra” e “Baião de dois”. Também fez excelente dueto com Zé Dantas nas letras de “Cintura fina”, “O xote das meninas” e “Sabiá”. A partir da década de 1960 a obra de Luis Gonzaga ficou mais restrita ao Nordeste e voltaria ao cenário nacional apenas anos mais tarde, sendo exaltado por uma nova geração de talentos nordestinos.
O segundo principal representante do regionalismo nordestino foi o paraibano Jackson do Pandeiro (1919 - 1982). De Alagoa Grande, Paraíba, para o Brasil e o mundo, José Gomes Filho foi a personificação da excelência nos ritmos típicos do Brasil, especialmente do folclore nordestino. Também foi criador de novas marcações para o Forró e afins, muito em voga pelas novas gerações. Entre seus sucessos citamos: “Sebastiana”, “O canto da ema”, “Um a um” e “Chiclete com banana”. O forró caiu bem devido, entre outras razões, a uma crescente evolução da dança de salão, a dois, bem “arrochado” e um tanto quanto maliciosa.
Da primeira safra de forrozeiros lembramos também de:



Sivuca (1930 - 2006), compositor e multi-instrumentista paraibano de reconhecimento internacional; Dominguinhos (1941 -), conterrâneo de Gonzagão, que iniciou como instrumentista e depois se firmou ainda como compositor e intérprete; Hermeto Paschoal (1936 -), natural de Alagoas, compositor e exímio tocador dos principais instrumentos; e Trio Nordestino, grupo formado no início da década de 1960.

Continua...