terça-feira, 31 de maio de 2016

Recomposição de "As Quatro Estações" de Vivaldi, por Max Richter


Quem já conhece a exuberância da obra "As Quatro Estações" de Vivaldi pode muito nos confirmar que aqui tratamos de uma das melhores composições clássicas de todos os tempos. Quem desconhece essa preciosidade, tem um motivo a mais para debruçar os ouvidos e a alma sobre essa obra-prima: uma recomposição moderna desse clássico.

No Brasil, onde não há educação musical universalizada, essa composição se consagrou no meio popular através da televisão, em virtude de uma série de comerciais da antiga linha de cosméticos Vinólia, linha essa exatamente rotulada de As Quatro Estações, cujo fundo musical era de trechos da obra de Vivaldi. Veja uma amostra aqui.
Memoráveis comerciais, diga-se de passagem.


As Quatro Estações

Composta em 1725, "As Quatro Estações" ("Le Quattro Stagioni", original em italiano) é a obra-prima do compositor italiano Antonio Vivaldi. Trata-se de um concerto para violino e orquestra, do estilo barroco, dividido em quatro partes, exatamente correspondendo às estações do ano: "Primavera", "Verão", "Outono" e "Inverno".

Confira a seguir "As Quatro Estações" de Vivaldi, interpretado pela Orquestra Sinfônica de Amsterdã, no Festival Internacional Kamermuziek, em Berlin, 2014:



O gênio Vivaldi

Antonio Lucio Vivaldi (1678-1741) nasceu em Veneza, Itália, filho de um modesto barbeiro, mas reputado excelente violonista. Inspirado nele, o bambino não tardou para se aventurar na Música. Ingressado na conceituada orquestra da Basília de São Marcos, tornou-se logo o melhor tocador de violino de seu tempo.
Antonio Vivaldi
Além da dedicação à Música, Vivaldi consagra-se à igreja, sendo ordenado padre em 1703. No entanto, dado sua frágil condição física e problemas de saúde, ele é dispensado das funções sacerdotais regulares e, recluso, pôde então dedicar-se a suas composições, num total de mais de 700 peças, dentre as quais, 477 concertos e 46 óperas.
Suas atividades musicais não eram bem-vistas pelos seus superiores na Igreja. Vivaldi chegou a ser excomungado. Sem o devido reconhecimento, passando a viver com sérias dificuldades financeiras, sustentando-se como professor de violino e da venda de suas obras, a preço irrisório.
Teve um caso amoroso com uma de suas alunas, Anna Giró, com quem partiu para Viena, a convite do imperador Carlos IV, em 1740. Em pouco tempo, porém, seu protetor e financista falece  Pobre, o compositor morreria no ano seguinte, tendo um modestíssimo enterro ali, na Capital austríaca.
Sua obra ficou praticamente esquecida nos dois séculos seguintes, até ser resgatada pelo seu conterrâneo, o maestro Alfredo Casella. Em 1939, Casella organizou a histórica Semana Vivaldi, chamando a atenção de vários musicólogos internacionais de renome. Desde então, sua obra passou a ganhar crescente prestígio, com destaque especial, claro, ao concerto "As Quatro Estações".


A recomposição, por Max Richter

E o que há de novo no front?
Bem, o destaque aqui é para a "recomposição/' de "As Quatro Estações" de Vivaldi, feita pelo compositor Max Richter (ver site oficial).
Como assim?
Pois então: o músico germano lançou em 2012 um álbum gravado junto com a Orquestra de Câmara de Berlim, sob a regência de Andre de Ridder, no qual apresentou uma recomposição da obra original do mestre italiano.
A releitura que ele faz desse clássico no álbum intitulado Recomposed by Max Richter, pelo selo Deutsche Grammophon é Vivaldi que passou por esses compositores incorporando elementos da linguagem tonal contemporânea.
"Eu quis abrir nota por nota a partitura original de Vivaldi, descobrindo sua essência para poder reescrevê-la, recompor, de forma mesmo literal." — descreveu Richter.
Um dos destaques é Summer 3 pela energia e maestria do violinista Daniel Hope.

Confira pelo vídeo abaixo a íntegra do concerto recomposto:



Antes dessa "aventura", Max Richter não era um nome muito conhecido, nem mesmo pelo público amante da música erudita. No entanto, fora autor de trilhas de filmes visto por milhares de pessoas, como Valsa para Bashir, de Ari Folman, e A Chave de Sarah, de Gilles Paquet-Brenner.
Max Richter

Aparentemente, "As Quatro Estações" não foi composta (ou, recomposta) para nenhum filme, embora funcionam muito bem para esse propósito, dada a repercussão — muito positiva, alíás — que essa releitura está causando.

A expectativa agora é: será que essa ideia de "recomposição" vai parar nas quatros estações de Vivaldi, ou teremos novas — e boas — surpresas vindo por aí, resgatando obras-primas, ressuscitando talentos e, ao menos em parte, reparando injustiças contra os gênios musicais do passado?