No aniversário de 100 anos do nascimento de Vinícios de Moraes (1913-1980), um dos maiores compositores brasileiros de todos os tempos, recordemos sua obra-prima, aquela que é a canção brasileira mais tocado em todo o planeta: "Garota de Ipanema", composta em parceira com Tom Jobim, em 1962.
Dentre as incontáveis versões desta, vejamos algumas que consideramos marcantes: Nosso primeiro destaque é para Pery Ribeiro, pois, ao contrário do que muitos pensam, a versão original não foi gravado pelos compositores, mas sim por Pery, em 1962:
Durante uma sessão em um estúdio em Nova York, ainda em 1963, Tom Jobim e João Gilberto, acompanhados pelo saxofonista de jazz Stan Getz, tiveram a ideia de gravar uma versão em inglês da música. Apesar de não ser uma cantora profissional na época, a então mulher de João, Astrud Gilberto, era fluente no idioma e gravou os vocais, que foram considerados perfeitos pelos músicos. A versão, que ganhou um Grammy, se tornou a mais conhecida mundialmente e Astrud chegou a aparecer cantando a música no filme “Get yourself a college girl”, de 1964.
Frank Sinatra e Tom Jobim – Depois do Grammy, a música se tornou um sucesso ainda maior e ganhou versões de intérpretes consagrados. Uma das mais célebres foi o dueto, em inglês e português, que se tornou a faixa de abertura de “Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim”, álbum que a dupla lançou em 1967 e foi indicado ao Grammy, na categoria disco do ano, em 1968. “The girl from Ipanema” se tornou tão importante na carreira de Sinatra que continuou no repertório do cantor pelo resto de sua vida, sendo incluída em praticamente todas as suas coletâneas e edições especiais.
Tom Jobim e Vinicius de Moraes – Em 1978, após o estrondoso sucesso de uma temporada no Rio de Janeiro, a dupla levou à Europa o show que fazia ao lado de Toquinho e Miúcha. Em um vídeo dessa turnê, gravado na Itália, ao final da música Vinicius fala em italiano sobre sua musa inspiradora. “Ela tinha 18 anos, a garota de Ipanema, tão bela, tão simpática. Lembra, Tom? Quando passava na frente do bar, tomávamos um aperitivo. Todos os copos já estavam vazios. Nós a acompanhávamos até o mar...”, recorda.
A versão da espetacular cantora inglesa Amy Winehouse pode ser encontrada em “Lioness: hidden treasures”, uma coletânea póstuma de covers, músicas inéditas e demos lançada em dezembro de 2011.
E que tal em francês? Ouçamos Laila Kinnunen:
Gosta do idioma italiano? Então Mina Mazzini nos dá o prazer:
Existem diversas versões em espanhol e/ou inglês de “Garota de Ipanema”, mas o detalhe curioso em relação à cubana Maria Esteli Gradiz Rodriguez é que ela usou esses idiomas para cantar em uma audição do programa “The Voice” na Polônia, onde vive. Vocalista da banda Havana Dreams, de José Torres, ela impressionou bastante os jurados – embora seja um pouco complicado entender o que eles disseram a ela, é fácil perceber a empolgação de todos eles. Assista.
A canção também é usada como um "símbolo" brasileiro para sátiras e bizarrices de todos os gêneros. Um desses exemplos é a versão dos Simpsons:
E mais essa, inclusa no seriado "The big bang theory”, em que Amy Farrah Fowler (Mayim Bialik) aparece feliz da vida tocando a música em sua harpa no segundo episódio da quinta temporada, até ser interrompida pelo namorado, Sheldon Cooper (Jim Parsons). Ela mais tarde ainda tenta mostrar seus dotes musicais, perguntando “você gostaria de me ouvir tocando um clássico da Bossa Nova de cor?”, mas ele recusa a oferta, deixando a moça visivelmente contrariada.
Helô Pinheiro, a musa que inspirou a música Garota de Ipanema
O amor precisa ser totalmente livre para se desenvolver?
Segundo Lionel Richie, em "Stuck on you", não é bem assim: a submissão ou a dependência a quem se ama é também uma justificativa para se amar.
Frases como "Estou preso (gamado) a você" e "Difícil entender como uma mulher como você pode esperar de mim" ilustram bem que aquele que ama normalmente se coloca na condição de aparente inferioridade, contudo, muito mais como artifício — legítimo ou não — de valorização da pessoa amada. Aliás, onde está a metragem para estabelecer a superioridade e a inferioridade num romance?
Lionel Richie não se importa com isso. Ele simplesmente canta aqui "Estou muito feliz por você estar aqui".
A sutilidade de quem confessa o seu amor e o reconhecimento do valor da pessoa amada, aqui figurada, fez-me colocar "Stuck on You" entre as minhas cem canções românticas internacionais preferidas.
STUCK ON YOU
PRESO A VOCÊ
I'm stuck on you
Estou preso a você
I've got this feeling down deep in my soul that I just can't lose
Tenho esse sentimento no fundo da minha alma, que não posso perder
Guess I'm on my way
Eu acho que estou no meu caminho
Needed a friend
Precisei de um amigo
And the way I feel now I guess I'll be with you 'til the end
E pelo que sinto agora eu acho que estarei com você até o fim
Guess I'm on my way
Acho que estou no meu caminho
Mighty glad you stayed
Estou feliz por você ter ficado
I'm stuck on you
Eu estou preso a você
Been a fool to long I guess it's time for me to come on home
Sendo um tolo por muito tempo, eu acho que é hora de voltar pra casa
Guess I'm on my way
Acho que estou no meu caminho
So hard to see
É tão difícil de entender
That a woman like you could wait around for a man like me
O que uma mulher como você poderia esperar de um homem como eu
Guess I'm on my way
Eu acho que estou no meu caminho
Mighty glad you stayed
Estou feliz por você ter ficado
Oh, I'm leaving on that midnight train tomorrow
Oh, estarei partindo no trem da meia-noite de amanhã
And I know just where I'm going
E eu sei exatamente aonde eu vou
I've packed up my troubles and I've thrown them all away
Empacotei meus problemas e os joguei todos fora
'Cause this time little darling
Porque dessa vez, queridinha
I'm coming home to stay
Estarei voltando para casa para ficar
I'm stuck on you
Estou preso a você
I've got this feeling down deep in my soul that I just can't lose
Tenho esse sentimento no fundo da minha alma, que não posso perder
Guess I'm on my way
Eu acho que estou no meu caminho
Needed a friend
Precisei de um amigo
And the way I feel now I guess I'll be with you 'til the end
E pelo que sinto agora eu acho que estarei com você até o fim
Guess I'm on my way
Acho que estou no meu caminho
Mighty glad you stayed
Estou feliz por você ter ficado
* * *
A música #96 da minha lista vem lá da Itália. Consegue adivinhar?
O casal de americanos Art & Dotty Todd já tinham aparecido na mídia cantando "Broken Wings" em 1953, mas nada comparado ao sucesso que teriam cinco anos depois, quando eles foram abordados na rua por um então desconhecido, Wayne Shanklin, que profetizou: "Eu tenho uma bela canção com a qual vocês farão grande sucesso".
Eles gravaram o que seria apenas um demo e levaram para a gravadora Era Records que, sem titubear, o transformou num hit e o casal arrumou um contrato permanente na requintada casa Chapman Park Hotel de Los Angeles.
Mais tarde vinte anos, Chanson D'Amour voltou às paradas de sucesso em vários países do mundo, especialmente EUA e Reino Unido, com a gravação do grupo The Manhattans Transfer. Daí em seguida, muitos outros intérpretes a regravaram, imprimindo diferentes estilos, dentre os quais eu destaco a apresentação da Orquestra de Andre Rieu em Toscano, Itália, na ocasião da gravação do maravilhoso DVD "Romantic Paradise", em 2004).
A letra original de "Chanson D'Amour" é um muito simples — como deveria ser simples todo romance:
Chanson d'amour, play encore. Here in my heart, more and more. Chanson d'amour, I adore. Each time I hear Chanson, chanson, d'amour.
O título em francês é certamente uma referência à boemia parisiense, muito em voga naquela época — conforme retratava o cinema daquela França —, desde que Paris se gaba ser a cidade mais romântica da Terra.
Assim, como diz a letra, muitos casais dançaram e suspiraram exclamando "toque Chanson D'Amour, toque mais e mais".
CHANSON D'AMOUR
CANÇÃO DE AMOR
Chanson d'amour
Canção de amor
Play encore
Toque novamente
Here in my heart
Aqui, no meu coração
More and more
Mais e mais
Chanson d'amour
Canção de amor
I adore
Eu adoro
Each time I hear
Cada vez que ouço
Chanson, chanson d'amour
Canção, canção de amor
* * *
A minha música romântica internacional número 97 é uma ode à paixão submissa e bem sucedida. E isso é realmente possível?
Depois de "CARELESS WHISPER" com George Michael (veja aqui), prossigo com a minha lista das cem melhores canções internacionais românticas, trazendo agora um título mais recente, de 1998: "YOU'RE STILL THE ONE", de Shania Twain.
Escrita pela própria intérprete, em parceria com Mutt Lange, não apenas é uma belíssima composição bem produzida, é um marco para o country moderno — ou Country Pop —, cuja proposta é uma mensagem otimista, daquelas histórias de amor que dão certo, como, aliás, tem sido o repertório desta talentosa cantora canadense.
Essa música ganhou dois Grammys em 1999: "melhor música Country" e "melhor performance vocal feminino", atingiu a primeira posição na Billboard, faturou dois discos de platina e o reconhecido da crítica.
Em tempos de "mulher objeto" e "amores descartáveis", a nossa música nº 99 canta a declaração de amor, pura e simples, com um detalhe que merece destaque: Shania inicia o single com uma declamação, impensável para os padrões conservadores. Sua ousadia certamente foi lida por muitos como uma tremenda breguice — e é mesmo, como a paixão também o é —, um risco fatal para uma cantora então ainda não conhecida. Pois o tiro foi certeiro e o brega virou chique. "You're still the one" tocou os corações dos apaixonados e influenciou uma geração.
YOU'RE STILL THE ONE VOCÊ AINDA É O ÚNICO When I first saw you, I saw love Quando te vi pela primeira vez, eu vi amor And the first time you touched me, I felt love E quando eu te toquei pela primeira vez, eu senti amor And after all this time, you're still the one I love E após todo esse tempo, você ainda é o único que amo Looks like we made it Parece que conseguimos Look how far we've come my baby Veja quão longe nós chegamos, meu bem We might took the long way Podemos ter pego o caminho mais longo We knew we'd get there someday Sabíamos que conseguiríamos algum dia They said "I bet they'll never make it" Eles dizem "Aposto que eles nunca chegarão" But just look at us holding on Mas olha só nós aguentando firmes We're still together, still going strong Ainda estamos juntos, ainda estamos fortes (You're still the one) Você ainda é o único You're still the one I run to Você ainda é o único para o qual eu corro The one that I belong to O único a quem eu pertenço You're still the one I want for life Você ainda é o único com quem quero viver (You're still the one) Você ainda é o único You're still the one that I love Você ainda é o único que eu amo The only one that I dream of O úncio com quem eu sonho You're still the one I kiss goodnight Você ainda é o único a quem dou beijo de boa noite Ain't nothing better Não há nada melhor We beat the odds together Nós vencemos as estranhezas juntos I'm glad we didn't listen São tão feliz por não termos dado ouvidos Look at what we would be missing Olha só o que teríamos perdido They said "I bet they'll never make it"... Eles dizem "Aposto que eles nunca chegarão"...
I'm so glad we made it Estou tão feliz por termos conseguido
Look how far we've come my baby Veja o quão longe nós chegamos, meu bem * * *
A minha música internacional romântica #98 será uma surpresa para muitos. Trata-se de um título inspirado na boemia francesa que consagrou Paris como a cidade mais romântica da Terra. Aguardem!
Como fazer uma lista de canções e não cometer injustiças? Impossível, a começar pela própria consciência, que nos fica a cobrar como este ou aquele título ficou de fora.
E quem tem vivido alguns anos com os ouvidos atentos à Música certamente não teria problemas em selecionar milhares de composições encantadoras.
Bem, como estou ouvindo bastante música na língua inglesa para melhorar minha audição em Inglês, eu resolvi topar essa proposta e me limitar a um número mínimo: uma centena, ordenando as canções sob diversos aspectos, por exemplo: a combinação estética da letra, melodia e acompanhamento, originalidade (embora esse termo não seja muito exato), relevância para o cenário de lançamento e, claro, influência pessoal, quer dizer, o valor emocional que certas canções tem para mim.
A cada item da lista, farei um comentário justificando a inclusão.
Não faltará quem zombe de um ou mais itens da minha lista, mas, no geral, estou certo de que é uma boa trilha sonora para quem quer curtir um momento romântico.
A lista com as minhas cem músicas românticas internacionais preferidas começa com "CARELESS WHISPERS", com George Michael, na 100ª posição.
Lançado em 1984, este single rendeu ao cantor inglês George Michael uma incrível vendagem do álbum "Make it Big" (aproximadamente 3,4 bilhões de cópias), alcançando com essa faixa o topo das principais paradas de sucesso do mundo.
A letra (composição do próprio George Michael em parceria com Andrew Ridgeley) inspira um mergulho nas sutilezas de um relacionamento intenso e, por conseguinte, complicado, donde se colhe comumente angústia e prazer, aqui retratados como "suspiros descuidados".
Não preciso me estender sobre a performance de George Michael depois de apenas acentuar a sua ocasional variação vocal, ora impondo um tom firme e altivo, ora praticamente sussurrando para dramatizar o personagem confuso com essa paixão.
CARELESS WHISPER SUSPIROS DESCUIDADO I feel so unsure Eu me sinto tão inseguro As I take your hand and lead you to the dance floor Ao pegar sua mão e levá-la para a pista de dança As the music dies, something in your eyes Quando a música acaba, algo nos seus olhos Calls to mind a silver screen Me faz lembrar uma tela prateada And all those sad goodbyes E todas aquelas tristes despedidas I'm never gonna dance again Eu nunca vou dançar novamente Guilty feet have got no rhythm Pés culpados não têm ritmo Though it's easy to pretend Emobra seja fácil disfarçar I know you're not a fool Sei que você não é tola Should've known better than to cheat a friend Eu deveria saber bem sobre não enganar uma amiga And waste the chance that I've been given E desperdiçar a chance que tive So I'm never gonna dance again Por isso eu jamais dançarei novamente The way I danced with you Do jeito que dancei com você Time can never mend O tempo nunca poderá reparar The careless whispers of a good friend Os suspiros descuidados de um bom amigo To the heart and mind Para o coração e para a mente Ignorance is kind A ignorância é bondosa There's no comfort in the truth Não há conforto na verdade Pain is all you'll find A dor é tudo que você encontrará I'm never gonna dance again Eu nunca vou dançar novamente Guilty feet have got no rhythm Pés culpados não têm ritmo Though it's easy to pretend Emobra seja fácil disfarçar I know you're not a fool Sei que você não é tola Should've known better than to cheat a friend Eu deveria saber bem sobre não enganar uma amiga And waste the chance that I've been given E desperdiçar a chance que tive So I'm never gonna dance again Por isso eu jamais dançarei novamente The way I danced with you Do jeito que dancei com você
Never without your love Nunca sem o seu amor Tonight the music seems so loud Esta noite a música parece tão alta I wish that we could lose this crowd Desejaria gostaria que fugíssemos dessa multidão Maybe it's better this way Talvez seja melhor assim We'd hurt each other with the things we'd want to say Poderíamos nos machucar com as coisas que gostaríamos de falar We could have been so good together Poderíamos ter dado tão bem juntos We could have lived this dance forever Poderíamos ter vivido essa dança para sempre But now who's gonna dance with me? Mas agora quem vai dançar comigo? Please stay Por favor, fique And I'm never gonna dance again... Eu nunca vou dançar de novo...
(Now that you're gone) Now that you're gone (Now that you're gone) What I did's so wrong, so wrong Agora que se foi, o que eu fiz de taõ errado, tão errado That you had to leave me alone? Que você tem de me deixar sozinho? * * *
Se "Careless Whisper" é só a minha centésima indicação, imagine o que vem por aí. Na próxima postagem, a 99ª música da minha lista é uma das mais recentes, extremamente romântica e das menos dramáticas, de declaração aberta e convidativa para um momento a dois.
Nada é mais inspirador e estimulante para um bom músico do que estar cercado de outros músicos. Talvez por isso grande parte dos músicos sofra tanto de uma profunda solidão, pois, mesmo muitas vezes, rodeados da massa, os músicos sentem a carência de ter sempre por perto alguém com quem compartilhar intimamente de sua musicalidade.
Pensando nisso, posto aqui uma excentricidade: de Itaporanga, sertão paraibano, para o mundo, o grupo Clã Brasil reúne uma linda e talentosa família de musicistas, tocando um forró maravilhoso.
Alguns dirão: que sorte, esses talentos nascerem juntos e poderem seguir carreira. E eu questiono: terá sido sorte? Não teria sido uma combinação feita no plano espiritual, pré-encarnação?
O vídeo abaixo, que faz parte do primeiro DVD oficial do grupo, inicia-se com um depoimento de Elba Ramalho e, adentrando no show, Clã Brasil mostra muita graciosidade, dignificando a participação especial do saudoso sanfoneiro Sivuca, executando o clássico "Feira de Mangaio".
Na nossa vida há momentos únicos e quando esses momentos únicos ficam "associados" a um background musical de qualidade, então eles se tornam ainda mais especiais. Eis um exemplo: Para comemorar o seu 130º aniversário, o Banco Sabadell (www.bancsabadell.com) promoveu um evento extraordinário em frente a sua agência, na praça Sant Roc, na cidade de Sabadell, perto de Barcelona, Espanha: um concerto clássico ao ar livre com a Orquestra Sinfônia Valiés e o seu Coral Belles Arts. Assistam ao vídeo e vejam o encantamento que a música proporciona às pessoas, que foram pegas de surpresa. Mas, especialmente, reparem as expressões das crianças diante da sublime arte musical. Eis um vídeo que merece compartilhamento. Vamos compartilhá-lo?
O artista é profeta da vanguarda, em sua ímpar mensagem subliminar, e a Música — primeira das artes — desenvolve esse papel superiormente. Fartos são os exemplos em que os artistas ousaram muito além do convencional, de formas extraordinárias, porém, exaltemos dois nomes da música clássica, em dois grandes momentos de ascensão espiritual.
O
compositor alemão Johannes Brahms
(1833-1897) alcançou a meia-idade consagrado como grande artista, tanto que ele próprio presumiu-se saturado, e, por conseguinte, um tanto desmotivado para novas
composições — faltava-lhe inspiração. Porém, em decorrência do
falecimento, um tanto trágico, do amigo e conterrâneo Anselm Feuerbach, Brahms voltou-se para os questionamentos mais profundos acerca
da espiritualidade, exatamente pela ocasião de ver-se diante daquela inesperada perda. Em memória do amigo, ele compôs uma verdadeira obra-prima, não
apenas pela sofisticação melódica, mas pelo tema empregado na canção.
Em
tempos de Inquisição, quando questionar os dogmas romanos era risco de vida,
Brahms absteve-se da mesmice dos temas fúnebres, especialmente em torno das
promessas clássicas do céu e inferno — extraídas da interpretação clássica
sobre as escrituras bíblicas —, e inovou, ao mesmo tempo em que provocou, considerando
outras ópticas, remontadas a partir da mitologia grega, em alusão direta a mais
abissal inquietação dos pensadores: o destino fatal, a morte inexorável.
No
réquiem Nänie (canção fúnebre), de 1881, sobre o poema homônimo de Friedrich Schiller, ele se vê obrigado a exaltar a morte
— desde já o primeiro verso do poema, que diz "Mesmo a beleza deve perecer". O poema de Schiller é uma espécie de lamentação do destino fatal, ao mesmo tempo em que define sua necessidade, pois há é a morte quem separa os homens dos deuses. Estes, certamente, lamentam essa necessidade, tanto que frequentemente interferem protegendo seus afilhados mortais, alongando os seus dias na Terra. Porém, são impossibilitados de os livrar definitivamente do túmulo. Para as divindades, não fosse a morte uma coisa lastimosa, em solidariedade a seus afilhados, eles próprios a admitiriam para a si. Contudo, uma obra dedicada a um defunto (como uma música fúnebre) não é, por si só, uma expressão de convicção de que a morte não é o fim? Em na referida composição, carregada de afetividade, Brahms conota então sua concepção de que o destino dos homens é indefinido, uma vez que ele a dedica a Feuerbach não como um ser extinto, mas sim a um Espírito que, onde quer que estivesse, receberia aquele presente. Em suma, vê-se aqui uma negação frente aos padrões do que se diz ser o destino, abrindo novas perspectivas; morte, fim, recomeço,
continuação…?
Em
outro opus, Schicksalslied (Canção do Destino), sobre o poema de Friedrich Hölderlin, Brahms polemizar
sobre a sina dos homens, como míseros mortais, frente aos deuses, que gozam da
infinitude.
A
indefinição deixada por Brahms abre brecha para que se perscrutasse sobre o
destino — da morte e do sentido da vida — com mais liberdade, de forma mais
intimista, apurando conclusões pessoas entre a racionalidade das coisas
terrenas e as emoções que a sepultura nos provoca. É, portanto, como que uma heresia,
uma indireta afronta à Igreja, que toma para si a prerrogativa de ditar o destino da
humanidade. Em Brahms, ousamos questionar nossa própria sina, bem como a da
Humanidade. E, num ato lúcido, uma conclusão primordial se apresenta desde
pronto: se a escrita não está legível, prevalece a dúvida.
Mais
tarde, os musicólogos vão encontrar uma versão bem plausível para a dúvida do
destino, na música de em Ludwig van
Beethoven (1770 - 1827), especialmente em uma sinfonia, a quinta — exatamente
a mais famosa deste compositor. Na verdade, não seria preciso ouvir mais do que
as quatro primeiras notas desta obra para se compreender a sua ideia central.
As três primeiras — notas curtas e num ritmo bem marcado — representam o ritmo
frenético e instintivo da vida terrena, na trilha quase que mecânica pela
sobrevivência carnal. A quarta nota — de duração mais longa — representa a Morte.
Percebe-se então, no transcorrer da composição, uma série combinada de quatro
notas, correspondendo àquela chave inicial, continuando três notas curtas e uma
quarta nota mais acentuada. A princípio, a expressão é grave, mesmo tenebrosa para uns, como se considerando a Morte um episódio lastimavelmente fatal; a extinção da vida. Nesse tom, as quatro primeiras notas (tam, tam, tam, taaaammm) representam a lendária figura da morte — uma velha senhora, de manto negro e com uma afiada foice à mão — batendo a nossa porta para nos levar. E, em verdade, para os materialistas, a morte é isto. Curiosamente, quando nós batemos à porta de alguém, o mais comum é exatamente executarmos quatro toques, sendo o derradeiro um tanto mais prologando. Não é assim com o amigo leitor? Todavia, de grave a expressão da composição cambia para a festança, nos dizendo que, após as três notas curtas (a nossa ligeira passagem na carne), tomados pela Morte — a libertadora —, adentraremos na continuação de nós mesmos, demonstrando a pujança da vida espiritual. Portanto, Beethoven encerra a quinta sinfonia — que começa com uma expressão um tanto
dramática — com uma fanfarra, para conotar um momento festivo, tal como é o
plano superior.
Talvez como em mais nenhum outro personagem, em Beethoven os ingredientes Vida, Morte e Música têm uma dramaticidade indizível: ainda com 28 anos de idade o compositor começa a perder a audição,. A surdez é progressiva e ele com apenas 46 anos já está totalmente surdo. Para qualquer pessoa, uma deficiência física é uma horrenda tragédia; para um músico qualquer, é uma morte prolonga. Por um momento, o gênio alemão se vê como que perdido, mas, felizmente, a Música o faz renascer.
"Devo viver como um exilado. Se me acerco de um grupo, sinto-me preso de uma pungente angústia, pelo receio que descubram meu triste estado. E assim vivi este meio ano em que passei no campo. Mas que humilhação quando ao meu lado alguém percebia o som longínquo de uma flauta e eu nada ouvia! Ou escutava o canto de um pastor e eu nada escutava! Esses incidentes levaram-me quase ao desespero e pouco faltou para que, por minhas próprias mãos, eu pusesse fim à minha existência. Só a arte me amparou!" (Ludwig van Beethoven, in Testamento de Heilingenstadt, a 6 de Outubro de 1802)
Beethoven renunciou àquele destino vulgar que lhe foi imposto e continuou musicando — e, pode-se dizer, cada vez melhor. A magistral 9ª Sinfonia, finalizada em 1822, dentre outras obras, foi composta já sem os recursos comuns do órgão auditivo. Destarte, ele personifica a vivacidade da arte musical com reflexo prático e direto à própria existência, pois se se considera como superiora a espiritualidade, seu alimento (o pão espiritual) há sobrepujar toda e qualquer manifestação fisiológica e mesmo psicológica — por exemplo, o desejo de auto-aniquilamento, em razão da humilhação de não se estar fisicamente completo.
A
relação entre os temas Vida, Morte e Música são, em suma, intrínsecos, seja pelo
fator técnico — por exemplo, a alternância do som (notas musicais) e silêncio
(pausas) —, seja pelo teor subjetivo das composições. A mitologia clássica
cuidou de pôr em relevo essas três potências no drama de Orfeu, que se utilizou
do encanto musical foi resgatar sua amada — Eurídice — do reino da morte — o
Hades. Nessa
trinca de potências, vê-se um ciclo em voga, em que a Música celebra a Vida,
enquanto em vida, e que a Morte, rompendo essa primeira ligação (Música-Vida),
acaba por reinventar tudo, pois que ela, a Música, é uma potência espiritual,
enquanto que essa Vida e essa Morte de que falamos — e que bem melhor grafados
ficam com os sinônimos encarnação e desencarnação — são compassos relativos
à dimensão terrena.
Que a Música nos inspire Vida e, pela Vida, musiquemos, pelo que, parafraseando o filósofo René Descartes: "Eu musico, logo, existo!".
A Música, entre tantas outras coisas excepcionais, nos ensina elegância. Em geral, o bom músico — ou, o músico verdadeiro — é tão elegante e gentil quanto sua desenvoltura musical. Veja um exemplo:
Durante um concerto na Rússia, ouve-se tocar o celular de alguém da plateia. O violinista então interrompe a música que executava, espera a pessoa desligar o celular e responde delicadamente com sua "arma", o violino, imitando o toque de chamada daquele telefone, sem precisar esbravejar ou humilhar o portador do aparelho. O carisma do músico, somado a sua destreza, arrancou uma sonora salva de palmas.
Quem responde deselegantemente a uma deselegância segue o exemplo de lavar a roupa suja com lama.
Olha só que projeto interessantíssimo e muito inspirador é "Music around the World" (Música ao redor do Mundo), com o subtítulo "Playng for change" (Tocando para mudar), pelo qual músicos de diversas partes do mundo executam uma mesma música, cada qual em seu lugar, representando um povo, Estado ou Nação, mas com o foco de que somos TODOS IRMÃOS, de uma mesma origem e destino, unidos pela espiritualidade (afora de religiosismo) e motivados pela MÚSICA.
No vídeo da janela abaixo temos a canção "Stand by me" (Fique comigo), reunindo os seguintes artistas: Roger Ridley (Santa Monica, California, EUA), Grandpa Elliotti, Roberto Luti e Washboard ChazClar (New Orleans, Lousiana, EUA), Clarence Bekker (Amsterdam, Alemanha), Twin Eagle Ofum Group (New Mexico, México), François Viguié (Toulouse, França), Cesar Pope (Rio de Janeiro, Brasil), Dimitri Dolganov (Moscou, Russia), Geraldo & Dionisio (Caracas, Venezuela), Junior Kissangwa Mbouta (Congo), Pokei Kilaas, Vusi Mahlasela e Sinamuva (África do Sul), Django Degen (Barcelona, Espanha) e Stefano tomaselli (Pisa, Itália).
Clique aqui e visite a página do projeto e curta mais episódios.
Observando os sons da Natureza, o homem desenvolveu a arte musical a partir da forma primária que é o solo, executado por uma só voz ou instrumento. Em seguida veio a ideia da polifonia, sincronizar vozes e instrumentos numa mesma canção. Desse ponto em diante iniciou-se um processo de sofisticação que resultou em formatos consagrados de gêneros e estéticas, variados conforme a região, a classe social e a aplicação. Novamente, vale a observação da pluralidade do tema e a impossibilidade de se precisar definições. Pois que um determinado gênero ou estilo tem ramificações complexas e altamente entrelaçadas entre si.
Trovadorismo
O trovadorismo popularizou a música profana (fora da Igreja) no Ocidente. Mas consta que o seu acompanhamento instrumental era alegórico, ou seja, sem harmonia com o tom vocal. Para tanto, os trechos cantados e tocados eram alternados.
Canto Gregoriano
É o gênero da música oficial da Igreja Católica introduzida pelo papa Gregório Magno no Século XIV. Sua forma básica era monofônica (uma só melodia) e complementar, em que a letra (expressamente religiosa) sobressaltava a melodia.
O estilo comum era o Moteto, execução que reúne um coral de várias vozes, que em certos casos cantam duas letras diferentes.
Estética Literária
Os estilos diversos que surgiram na música profana do Século XIV eram classificados com o mesmo nome atribuído à estética literária da letra empregada. A Balada Clássica francesa, por exemplo, era uma poesia lírica composta de três estrofes de oito versos cada e finalizada com uma estrofe de quatro versos chamada de envoi, na qual se fazia uma dedicatória.
Na Itália, o Madrigal original, Século XVI, tinha como característica principal o uso de um estribilho (de melodia diferente) entre três estrofes de três versos cada.
Contraponto
A técnica do contraponto quebrou a tradição de os instrumentos musicais e vozes tocarem a mesma seqüência melódica. Nela, cada voz (humana ou de instrumento) tem sua própria melodia independente, podendo em alguns casos, sincronizar notas extremas e completamente diferentes.
Essa técnica foi proliferada pelos ingleses, especialmente John Dunstable (1390 - 1453).
Efeitos estéticos
Alguns truques musicais foram criados para criar efeitos melódicos e de acompanhamento. O Cânone, por exemplo, consiste da repetição de um trecho tocado por um segundo instrumento ou voz iniciado um pouco antes da execução da primeira voz se encerrar, permitindo assim a ocorrência de uma harmonia interessante. Quando o final desse trecho repetido sugeria o retorno ao próprio trecho, criando assim um ciclo infinito, esse efeito circular passa a ser uma Ronda ou Rota.
A Síncope é o efeito de ligar a última nota de um compasso à primeira do compasso seguinte.
A fuga, recurso muito usado por Bach, se compõe de um tema (certa linha melódica) que cresce a partir de uma exposição. Textualmente, poderia representar da seguinte forma: “Eu vou... Eu
vou pra casa... Eu vou pra casa dela esta noite”.
O Minueto é um segmento curto e bem acelerado usado como desfecho de grandes peças (sinfonias, óperas, concertos).
Oratório
É a forma primitiva da ópera. Nela, uma execução vocal e instrumental se baseia em um tema religioso de teor dramático, devidamente apresentado por um narrador e acompanhado pelo público através do libreto (texto da peça). Não há expressão cênica e seu conteúdo e meramente sonoro.
Sonata
Peça composta de uma melodia principal executada por um ou dois instrumentos – violino ou teclados (piano ou órgão), que se alternam ou se entrelaçam no seu decorrer. Sua melodia é dividida em três ou quatro movimentos totalmente distintos. Quando acompanhada por orquestra, a sonata é chamada de Sinfonia. Quando executada por instrumento solo, assume a forma de um Concerto.
Concerto
Composição para solos (um ou mais instrumentos), com ou sem acompanhamento. O concerto clássico era empregado para violino – geralmente acompanhado de orquestra -- ou piano (copiado também para órgão). Sua formatação essencial é feita com o propósito de privilegiar o individualismo. O concerto de câmara é aquele executado por um pequeno conjunto de instrumentos (de quatro a doze). Os concertos podem ser executados individualmente ou podem fazer parte de uma peça maior, como a ópera. A sua composição original é dividida em três movimentos distintos, cujo andamento é acelerado a cada etapa. O italiano Antonio Vivaldi foi um dos grandes compositores desse gênero.
Os concertos para violão se tornaram muito populares no século XX – inclusive, com grande contribuição dos músicos brasileiros como Baden Powell, Sivuca, Hermeto Paschoal, Dilermando Reis, João Gilberto, etc.
Sinfonia
É a forma complexa do concerto, acompanhada por orquestra. Inicialmente, esse termo se aplicava a qualquer composição para orquestras. Sua estética básica divide a obra em quatro movimentos, cada um mais acelerado que o anterior, às vezes com Rondós (repetições seccionadas dos temas), normalmente finalizada com um minueto.
No século XVIII, as sinfonias forma introduzidas às óperas como introdução da peça. Os grandes mestres da sinfonia são: Beethoven, Mozart, Brahms, Mendelssohn e Schumann.
Ópera
Considerada a mais sublime expressão artística, por fazer uso das principais artes (Música, Teatro e às vezes, dança). Em suma, é uma peça teatral dramática cantada e acompanhada por músicos (em geral, orquestra). Esse gênero suntuoso tem como elementos complementares cenários, vestuário suntuoso.
O termo é oriundo do latim “opus”, que quer dizer “obra”. As primeiras obras italianas, século XVI, reproduziram o teatro grego e suas tragédias épicas. A ópera-comique era um modelo francês em que grande parte do libreto (texto da obra) era recitada. O Balé é também uma extensão da ópera, cujo elemento diferencial é a dança – rigorosamente marcada com técnicas específicas. Ele nasceu na nobreza palaciana da Itália do século XIV e se desenvolveu em toda a Europa, especialmente Alemanha, França e Rússia (de onde se originou a mais tradicional companhia o Balé Bolshoi).
Seus personagens e cantores são classificados por seu timbre. Homens: vocal: baixo, barítono e tenor. Mulheres: contralto, mezzosoprano e soprano – além das subdivisões.
As mais famosas obras são: “Carmen”, de Bizet; “Aida”, de Gioseppe Verdi; “O Barbeiro de Sevilha”, de Gioacchino Rossini; “Don Giovanni”e ““As Bodas de Figaro” de Mozart; “Tristão e Isolda”, de Richard Wagner; “Madame Buttlerfly”, de Giacomo Puccini.
A seguir, um vídeo com uma ópera completa: "La Cenerentola", de Rossini.
OperetaVersão mais da ópera, sendo mais flexível na forma e estética, mais curta e de temas populares. Seu libreto é interpretado com a alternância de canto e diálogo. A dança – até mesmo as mais populares --, também é um forte elemento de sua composição. Difundida no século XIX, ela ocupou o espaço aonde as óperas não chegaram pelo custo elevado da montagem.
Orquestra
É o conjunto de músicos e instrumentos regidos por um maestro, formado para a execução da música erudita, típica da Cultura ocidental. As primeiras orquestras foram reunidas e mantidas pela nobreza e órgão governamentais. Em seguida vieram os grupos privados. Seus músicos podem ter fixos ou autônomos (freelancers) – especialmente os de instrumentos complementares.
Os adjetivos “filarmônica” e “sinfônica” são adicionados para especificar os grupos. A rigor, em nada diferem quanto à estrutura musical, ambas têm a semelhante aplicação. Mas é comum usar tais adjetivos para distinguir os grupos de uma mesma região, país, cidade ou corporação e, ou o patrocínio desses grupos. Exemplo: Orquestra Sinfônica de Berlim (estatal) e Orquestra Filarmônica de Berlim (particular).
Sua composição não tem um número fixo de elementos, podendo ultrapassar o número de cem, dependendo das obras a serem apresentadas. O piano, por exemplo, é incorporado à orquestra apenas em peças específicas (como em concertos para piano). Outro instrumento opcional é a harpa.
Todavia, as orquestras têm um modelo básico e com isso, um padrão de posicionamento no palco para a melhor orquestração e distribuição sonora para os apreciadores. Os quatro grupos típicos de instrumentos são:
Miniatura de uma orquestra, composta de um pequeno número de músicos e instrumentos (de dois a doze). Popularizada para acompanhar pequenos recitais e concertos que exigem poucos membros, espetáculos particulados e reservados, como cerimônias de casamento, aniversários e graduação.
A Música de Câmara, executada pelas orquestras de câmara, é basicamente instrumental, embora isso não seja regra. O estilo das obras varia, entretanto, a sonata é o mais habitual.
As combinações são inúmeras. Uma das mais comuns, o quarteto de cordas, em geral se compõe de dois violinos, uma viola e um violoncelo. Acrescentando mais um membro – um instrumento de sopro ou um piano, por exemplo --, é formado um quinteto, bastante recorrente na Inglaterra, desde o século XIX. Duo e trio também são formações comuns desse gênero. Acima de um sexteto, os membros adicionais passam a ter um valor secundário. Seu emprego se expandiu ao longo dos anos, para execuções abertas, teatros e apresentações cerimoniais especiais.
Alguns conjuntos específicos com características de orquestra de câmara são assim denominados, com nos conjuntos de Jazz, o mesmo que orquestras de Jazz.
Maestro
A complexidade de uma orquestra passou a exigir a presença de um regente que auxiliasse os músicos na marcação do tempo e na expressão musical, caracterizada nas propriedades de intensidade e andamento. Esse condutor é o Maestro.
A princípio, o maestro era um dos instrumentistas, um músico líder dentro do grupo – muitas vezes até revezado a cada peça. Em obras para solistas, o principal instrumento era naturalmente o régio dos demais. O formatador do maestro moderno foi o compositor alemão Carl Maria Von Weber(1786 - 1826). Ele introduziu o uso da batuta – vareta com a qual o maestro conduz a expressão dos músicos.
Para o público específico – normalmente conhecedor profundo e ouvido apurado – a interpretação de uma mesma obra varia bastante entre um maestro e outro. Essa capacidade de quase reescrever uma composição serve como medida de prestigio de um regente. E muitos deles ganharam fama internacional, dentre eles: Hector Berlioz (1803 - 1869); Richard Strauss (1864 - 1949); Leopold Stokowski (1882 - 1977); e Herbert von Karajan (1908 - 1989).
O Brasil também teve bons nomes. O maior deles é o de Eleazar de Carvalho (1912 - 1996), nascido em Iguatu, Ceará. Regeu várias orquestras dos Estados Unidos e Europa. Finalizou sua carreira como maestro da Orquestra Sinfônica de São Paulo.
Bandas
Historicamente, as bandas originais têm ligação com a comunicação de guerra. Certos sons de instrumentos de sopro (clarim, por exemplo) e de percussão (como os tambores) eram usuais para ditar códigos aos exércitos (ataque, retirada, etc.). Por isso, os conjuntos musicais formados em departamentos militares são chamados de bandas. Sua base é formada de metais, madeiras e percussão.
No Brasil, a Ditadura Militar incentivou a prática das bandas, que deixaram os quartéis para se apresentarem nas praças públicas. O gênero principal é o dobrado, o mesmo que marcha militar.
Até por certa ironia, os roqueiros -- críticos ferrenhos das ordens governamentais – adotaram o nome de banda em substituição ao termo conjunto musical, há muito em desuso. Daí por diante, costuma-se chamar de banda, qualquer grupo de música popular, de diversos gêneros (Rock, Forró, Romântico, etc.), exceto os de Samba e derivados, que são chamados de grupos.
Música Popular
Paralelamente à música erudita, rica em instrumentação, notação e exibições, a música popular sempre seguiu ao redor do mundo. Desenvolvida de acordo com os costumes regionais e sem padrões definidos – até o despontar da globalização. Com a evolução dos meios de comunicação e o maior contato entre as nações, gêneros populares foram ganhando forma, espalhando-se e criando versões e subdivisões. Os principais:
• Jazz = mistura de ritmos africanos e técnicas eruditas da Europa que surgiu nos EUA no começo do século XX. Alguns musicólogos admitem que o Jazz é um intermediário entre a musica clássica (pela sofisticação instrumental) e a popular (pela improvisação e arrojo vocal). Através dele, o acompanhamento de percussão e bateria se consagraram como elemento praticamente indispensável para os ritmos modernos. Os maiores intérpretes do Jazz são: Louis Armstrong (1900 - 1971), autor de “What a wonderful world”; Bessie Smith (1894 - 1937); Billie Holiday (1915 - 1959); e Miles Davis (1926 - 1991).
• Blues = também nascido no solo americano e considerado um modelo mais singelo de Jazz. Tem origem no folclore da escravidão negra e por isso, o tema principal costuma ser em torno da dor e melancolia da vida e contratempos amorosos. Alguns mestres do Blues: Ray Charles (1932 - 2004), de quem se destaca: “Hit the Road, Jack” e “The end”; Janis Joplin (1943 - 1970) e B.B. King (1925 -).
• Soul Music = a “música da alma” é um derivado do Jazz e do Blues usado para a música religiosa americana, o Gospel – embora na prática, o repertório seja eclético. Além dos convertidos (como Ray Charles), tem como expoentes: James Brown (1928 -), do sucesso “I feel good” e Aretha Franklin (1942 -), de interpretações soberbas como se ouve em “Satisfaction” e “Like a natural woman”.
• Samba = o primeiro gênero brasileiro conhecido internacionalmente, que engloba variações como Chorinho, Marcha Carnavalesca, Samba-enredo, samba-canção e Pagode. Foi fundamentada a partir das tradições africanas trazidas pelos negros escravos, especialmente na marcação rítmica e batucada forte, em que se destaca o tam-tam, o surdo, a cuíca e o pandeiro. O acompanhamento tonante tem como principal instrumento o cavaquinho e os secundários: banjo, violão e bandolins. A safra de sambistas é vasta e sempre renovável, da qual citamos: Pixinguinha, Cartola, Braguinha, Waldir Azevedo, Jamelão, Martinho da Vila, Beth Carvalho, Zeca Pagodinho, Alcione, Noite Ilustrada, Leci Brandão, Adorinan Barbosa (Demônios da Garoa), Paulinho da Viola.
• Bossa Nova = está para o Brasil o que é o Jazz para os EUA – uma mescla do erudito com o popular. Criado e formatado por Tom Jobim, João Gilberto e Vinicius de Moraes na segunda metade do século XX. Sua sofisticação influenciou muitas culturas musicais, como a americana. Não por menos, grandes artistas da bossa se estabeleceram no exterior. A partir da Bossa, muitos outros ritmos foram desenvolvidos.
• Rock = a primeira grande explosão popular e talvez o mais importante gênero musical de todos os tempos, em todo o mundo. O Rock é um universo tão gigantesco que é impossível descrevê-lo: a extravagância e irreverência dos roqueiros, a anarquia de suas letras, a estrídulo dos instrumentos eletrificados, da sutileza e agressividade das mensagens, etc. O rock se propagou por diversas correntes: Rock in Roll, Metálico, Rock-Pop, Underground, Punk Rock, Heavy Metal, Hippie, etc. A história do Rock começou nos Estados Unidos e virou fenômeno mundial, passando pelas obras de: Chuck Berry e Little Richard; como pioneiros; Elvis Presley e as bandas inglesas The Beatles e The Rolling Stones, como maiores divulgadores; The Who, Bob Dylan, Paul Simon e Art Garfunkel, Johnny Rivers, Eric Clapton, Jimi Hendrix, Led Zeppelin, The Doors, Queen, Pink Floyd, U2. No Brasil, a porta de entrada foi a Jovem Guarda e a Tropicália, para mais tarde, abraçar praticamente todos os subgêneros. Os roqueiros nacionais de maior destaque são: Raul Seixas, Roberto e Erasmo Carlos (da fase da Jovem Guarda), Rita Lee, Blitz, RPM, Titãs, Os Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho, Skank e Legião Urbana.
• Reggae = síntese da tradição negra da América Central, cujo berço é a Jamaica. Mistura de Jazz e Soul americano e ritmos caribenho como o Calypso. Seu precursor na mídia internacional foi Jimmy Cliff cuja musicalidade foi caracterizada pelo uso da guitarra para marcar o ritmo. Em seguida, o também jamaicano Bob Marley (1945 - 1981) assumiu o reinado no gênero. Aliou ao reggae o artifício místico-religioso chamado Rastafari e fez franca-apologia ao uso da maconha, segundo ele, um elemento sagrado para certas cerimônias (seus próprios shows, por exemplo). O Reggae brasileiro também prosperou, especialmente no terreno baiano (Gilberto Gil) e nos estados do Norte (Tribo de Jah, Edson Gomes). A partir dele, surgiu a variação denominada Swing Baiano.
• Tango = gênero desenvolvido na Argentina (versão moderna), no século XX, oriundo dói folclore espanhol. Seu ritmo segue o compasso binário (2/4), de acompanhamento cortado (staccato) e solos à base de piano e instrumentos de fole (acordeão, harmônica, gaita de fole, etc.). O tema usual é a tragédia amorosa e a melancolia. Sua dança é bem definida pelos passos e considerada elegante. O artista mais famoso desse gênero em todos os tempos é Carlos Gardel (1890 - 1935), nascido na França e naturalizado argentino. Suas melhores obras são: “Volver”, “Desdén” e “El dia que me quieras” (parceira com Alfredo La Pena).
• Disco = chamado no Brasil de “Discoteca”, esse gênero foi a janela para criações futuras como o Tecno music, New Age, Hip Hop, etc. O Disco nasceu na década de 1970 com a banda inglesa Bee Gees, formada pelos irmãos de origem australiana: Maurice, Barry e Robin Gibbs. A febre se deu com a trilha sonora do filme “Saturday Night Fever” (lançado no Brasil com o título “Os embalos de sábado à noite”) – a mais vendida em toda a história do cinema. Seus grandes sucessos são: “Night fever”, “Stayin’ Alive”, “More than a woman”, “Words”, “How can you mend a broken heart”, “How deep is your love”. Grande notabilidade alcançada com esse estilo teve o grupo ABBA.
• Bolero = é oriundo da região espanhola La Mancha, por volta do século XVIII. Seu compasso é ternário e acompanhamento à base de violão, ritmado com castanholas. Sofreu várias transformações na própria Espanha (como a variante Fandango) e em outras partes do mundo. Através da colonização hispânica, toda a América Latina abraçou este gênero fortemente, assim como seu repertório clássico, exceto o Brasil – talvez, pela diferença de idioma. Aqui o Bolero foi mais empregado na Seresta, principalmente na voz dos mineiros: Altemar Dutra e Nelson Ned, que interpretaram o original e a tradução de vários clássicos do Bolero e alcançaram boa notação.
• Ritmos caribenhos = além do Reggae, os povos do Caribe desenvolveram ritmos variados, sempre privilegiando o balanço forte e teor quase sempre festivo. Esporadicamente esses ritmos lançam modas internacionais. Merengue, Rumba (em certos lugares chamada Cumbia), Salsa, Mambo, Chá-chá-chá, Lambada e Calypso. Praticamente todos esses estilos foram explorados e apresentados ao mundo pelo grupo cubano chamado Buena Vista Social Club, liderado por Ibrahim Ferrer. Também de Cuba, Gloria Estefan levou as tradições musicais mais modernas das Antilhas para os EUA e tornou-se estrela mundial. Apesar de curta carreira, a mexicana Selena fez estrondoso sucesso nos Estados Unidos cantando ritmos caribenhos. Sua vida e seu assassinato foram interpretados por Jennifer Lopez num filme com seu nome. Beto Barbosa importou esses ritmos, especialmente a Lambada, e fez muito sucesso no fim da década de 1980 com os sucessos “Adocica”, “Preta”, “Você errou mais do que eu” e “Balance com BB”. A versão da lambada “Chorando se foi”, interpretada pelo grupo Kaoma foi a música mais tocada no Brasil em 1988, ano de seu lançamento. A Banda Calypso despontou no cenário nacional no começo do século XXI com ritmos que sugerem ser típico do Caribe. Embora haja mechas deles, a banda não corresponde fielmente ao nome e seu estilo se caracteriza muito mais nas tradições nortistas do Brasil.
• Pop = como se denomina a música popular variada e totalmente descomprometida com correntes, é uma criação mundial e, a rigor, é mais uma cultura do que um estilo musical. Costuma-se classificar de Pop um determinado estilo que não tem um estilo definido, como que por eliminação: se não é Rock, nem Samba, nem Reggae... Então é pop. Muito embora, um Rock fora dos padrões convencionais do Rock é chamado também de Pop. Um Reggae mais diferente que o primitivo também pode ser tachado de Pop. Provavelmente esse termo surgiu da crítica pejorativa que os roqueiros tradicionais usavam contra roqueiros mais “lights”. Na década de 1980, o americano Michael Jackon (1958 -) foi coroado “rei do Pop”. Mas sua carreira declinou e o título caiu no esquecimento. Sua contemporânea e compatriota Madonna (1958 -) também foi era chamada de “rainha do Pop”. Em seguida, esse gênero se aproximou mais da música romântica, cujo ritmo básico é chamado de Balada. Algumas referências: Elton John, Phil Collins; Bryan Adams, Whitney Houston, Scorpions, A-Há, Air Supplay, Lionel Riche, Paul McCartney, George Michael, Julio Iglesias e Roberto Carlos.
E tem mais...
O melhor de tudo é que novos estilos, sucessos e artistas surgem e surgirão sempre, seja reformando conceitos ou revivendo antigas e inesquecíveis formatações, para todos os gostos.